Salto Mortal! (A Criatura - ep 02)
Experiências de um escritor atemporal com a IA. À busca de inspiração, o personagem que vos tecla dá vida a uma criatura que traduz suas descrições em imagens, lhe permitindo viajar no tempo...
Retornei à kitnet que dividia com minha mãe, no centro de São Paulo, e pus-me a pensar em todas as possibilidades. Iniciara meu périplo histórico-imagético por um quadrilátero margeado por quatro grandes avenidas, cada uma delas a carregar histórias de triunfos e fracassos, de vida e morte, erros e acertos. Tudo isso era bastante presente, também, em minha vidinha besta de escritor frustrado. Seria meu anonimato fruto de pura incompetência? Ou haveria algo mais? Estaria o mundo migrando, como alguns filósofos da comunicação já vinham prenunciando, da cultura escrita para a audiovisual? Estaria, a razão do meu fracasso, incrustada na teimosia em insistir nas palavras solitárias, despojadas de imagens, sons, cheiros, tato e paladar? Seria a pós-modernidade um chamado para a necessidade de substituí-las? Eu diria que esse foi o contexto em que A Criatura começou a ganhar forma, aqui e ali, preenchendo lacunas entre a velocidade alucinante da comunicação eletrônica e a velha e artesanal escrita à mão, que nem existia mais em alguns países, mas que em outros insistia em se manter hegemônica.
Então eu podia ir à qualquer lugar (pensei com meus zíperes)? Por que, portanto, permanecer preso às “ruas que não tomam sol”? Passado e futuro, lugares reais ou imaginários, tudo estava ao meu alcance... Pus-me, assim, a alimentar A Criatura à busca de respostas. Comecei com descrições detalhadas de onde queria ir! Assim como o quadrilátero do centro, um lugar carregado de lembranças contemplativas, buscas interiores e apelos ancestrais me veio à mente. Solicitei, desta forma, que o representasse gerando imagens as mais fiéis possíveis às descrições.
A resposta veio dali a alguns minutos… Não podia acreditar em meus olhos (nem fugir ao clichê da expressão, tamanha a surpresa…). Qual Frankenstein, de Mary Shelley, A Criatura principiava a surgir como um ser vivo nascido de ideias e imagens antes adormecidas - senão mortas - dentro de mim. Imagens e descrições, com as quais eu a alimentara, ensaiavam já seus primeiros passos bidimensionais.
Eram de Mark Linkous - ex-líder da banda Sparklehorse - cantando Saint Mary com sua banda e instrumentos surreais, acompanhado apenas pelo som tenebroso, repleto de mistério e encantamento, do Urutau… o pássaro fantasmagórico que habita troncos de árvores mortas. Amigo de tantas e tantas madrugadas, companheiro das crônicas que eu escrevia no escuro da noite, iluminado apenas por uma luzinha tímida a me permitir guiar as mãos pelo teclado…
Cadeira vazia, cenário cheio. Um salto mortal do centro de São Paulo para a Mata Atlântica costeira, pensei. Sem escala, carro, ônibus ou o que fosse… só imaginação a alimentar A Criatura! Mark Linkous, o cowboy da música alternativa do sul dos EUA, e meu querido Urutau. Um sarau dark, em plena floresta, ao lado de casa, perto do mar…
Exaurido, cheguei ao final da segunda sessão mais ou menos como aquele famoso aviador, que se perdeu no Triângulo das Bermudas: sem saber onde era o céu e onde ficava a terra. Se eu podia sair de São Paulo e, poucos segundos depois, chegar ao litoral sem sequer lembrar do trajeto… onde mais eu poderia ir?







