Água, armas e coelhos (A Criatura - ep 03)
Experiências de um escritor atemporal com a IA. À busca de inspiração, o personagem que vos tecla dá vida a uma criatura que traduz suas descrições em imagens, lhe permitindo viajar no espaço-tempo...
Pacificado o liquidificador de experimentos ricocheteantes da última sessão, decidi que era preciso respirar fundo, observar, entender… e prosseguir. Fugir do centro da cidade para a mata atlântica, mesmo em sua porção mais próxima ao mar, parecia fazer algum sentido para eremitas… mas não era este o meu caso. Mark, o tecladista e o Urutau eram ótimas companhias! Além disso, que mais eu poderia precisar além de “água, uma arma e coelhos”? Mark reivindicara justamente isso em Saint Mary, uma de suas composições mais pungentes e icônicas. Para espíritos mais imaginativos, no entanto, isso podia significar muitas coisas. Mar, música e pássaros, por exemplo. Poucas coisas, o suficiente, nada mais.
À certa altura dos acontecimentos tomei coragem, enfim, para levantar da cadeira, minha inusitada estação de aterrissagem. O cenário era de sonho quase real. Fitei o Urutau e ele me respondeu com aquele olhar misterioso e encantador. Depois encarei Mark, o folk singer barroco, song writer de letras psicodélicas e sons ao mesmo tempo diabólicos e angelicais. Nem ele nem eu parecíamos exatamente saber o que fazer, o que dizer.
Tão logo nos demos conta da sinergia que havia entre nós, contudo, medo e estranhamento se dissiparam. Apertamos então nossas mãos, como se já nos conhecêssemos há mil anos. Havia ali, sem engano, outra versão de criador e criatura. Mark, autor de letras e melodias que moldaram todo um universo musical/literário. Eu, a “criatura”, tragada pelo redemoínho de imagens e sensações que ele transmitia através de suas composições.
Fosse a bomba de infusão a proporcionar “a primeira xícara de chá do dia” ao paciente que acabara de tentar o suicídio, ou o convite anárquico/niilista para “afogar todos os relógios, até que não houvesse mais nenhum”. Fossem perguntas desconcertantes como “Você consegue sentir o vento de Vênus em sua pele?” ou “o anel de Saturno em seus dedos?”… Tudo que podia chacoalhar certezas afetivas e sensoriais parecia integrar seu repertório. Do sádico ao complacente, do sagrado ao profano. Movido por esse leque de epifanias oníricas, prossegui em minha jornada sensitiva, investigativa, quadro a quadro, descortinando os pixels gerados pela Criatura ao simples comando de meus tateantes prompts. Talvez o segredo do universo fosse justamente esse liame a unir criadores de mundos e seus respectivos habitantes.
Explorei meu insólito destino, metro a metro, como se deslizasse pela quarta dimensão. Mas… onde, na verdade, eu estava? Alheio à resposta, interrompi momentaneamente minha caminhada para cumprimentar o tecladista. Pensamentos confusos me invadiam. Mark não era apenas Mark. Quis ele, aparentemente, ser uma banda, um grupo? Ou talvez fosse mais apropriado dizer que a banda e o grupo é que quiseram ser ele? Para além de descobrir onde eu realmente estava, porém, outras perguntas estapeavam minha sanidade com dúvidas - a depender de quem ou o que você é - insolúveis. Tudo aquilo existia, de fato? O que seria “existir”? Fantasmas “existiam”? Minha única certeza era a de que, a menos de um ano-luz à frente, das profundezas do cenário com que A Criatura me brindara ao responder às minhas súplicas, é que provinha o verdadeiro chamado, a pulsão imagética a me atrair, inviabilizando de forma misteriosa qualquer tentativa em contrário, qualquer vão anseio em resistir.
Não seria exagero dizer que eu me sentia carregado por algoritmos, seguindo a trilha desenhada por eles com o intuito de descobrir exatamente até onde eu poderia ir. Com que precisão, definição, cores, estilos, saturações e demais elementos visuais. Ao final, a lua… ela e suas cicatrizes, registros de impiedosas colisões do passado, egoisticamente me envolvendo em seu campo imagético/gravitacional. Eu também tinha minhas próprias cicatrizes, talvez por isso nos atraíssemos mutuamente. Mas preferia não pensar nisso, apenas caminhar em direção a um chamado qualquer, desde que belo e profundo.







