A Criatura (A Criatura - ep 01)
Experiências de um escritor atemporal com a IA. À busca de inspiração, o personagem que vos tecla dá vida a uma criatura que traduz suas descrições em imagens, lhe permitindo retornar aos anos 70...
Órfão de projeto, tratei de reatar meu conturbado relacionamento com a IA, chamando-a agora do que realmente ela é: a… Criatura! Cria do inglês Alan Turing, do americano Vale do Silício, minha, sua, de quem a use, recriando-a, seria a IA do século XXI uma espécie de herdeira de Frankenstein, de Mary Shelley, do século XIX? Não porque, ironicamente, esteja eu teclando quase à luz de velas, já que a eletricidade aqui em casa - vejam só - acabou… mas sim pela ideia de “criatura” mesmo. Aquela que se vira contra o criador, meio Frankenstein, meio “2001, uma Odisséia no Espaço”... O fato é que há interfaces entre todas essas criações da imaginação humana… e a IA. Mas vamos aos primeiros passos desta minha nova experiência, mais especificamente com o GPT “Ruas Que Não Tomam Sol”, crônica minha de 2018, cujo universo revisito, agora como expectador de cenários e sensações passadas, bem como protagonista de temores futuros. Já ia esquecendo: escrevo sob o efeito da Rádio “Changes (Black Sabbath)”, do YouTube Music. Ozzy Osbourne, Frankenstein, A Criatura… entendem?
Há muito tempo atrás eu frequentava o quadrilátero das ruas São Luís, Consolação, São João e Ipiranga, no centro de São Paulo. Era a década de 70, período em que eu aprendi a fazer coisas sozinho. Foi minha época de ouro, meu despertar. Andando solitariamente pelo centro, aprendi a admirar a beleza do passado representado em cada esquina. Fosse pelos prédios portentosos com portões gigantes de metal dourado da avenida São Luís, ou pela arquitetura magistral do Caetanos de Campos. Ou, ainda, pela magnificência do Edifício Itália… Ou, quem sabe, através do esplendor da biblioteca do Clube de Xadrez São Paulo. Aprendi também, contudo, a temer a feiura das escadarias escuras a espreitar transeuntes desprevenidos, os becos por onde aquelas mulheres de exuberância duvidosa se vendiam para deus-sabe-lá-quem... Não era o meu universo, mas passou a ser. Ao menos em imaginação e observação distante e desconfiada...
O mundo foi se corporificando, dividido entre prédios e putas, portões dourados e escadarias escuras. Mas meu palco era o Instituto de Educação Caetanos de Campos, reduto de reputações passadas e aspirações futuras. Seus alunos - eu incluso - ainda veriam a luz do dia por muitas e muitas décadas, ao menos os mais afortunados. Afortunados? As décadas seguintes fariam muita gente perder a inocência quanto à possibilidade da vida na Terra esparramar-se pelos séculos vindouros. O mundo se fragmentaria novamente em guerras imundas, preconceitos inomináveis, hipocrisias acachapantes, tão monstruosas quanto bombas, talvez por serem suas patrocinadoras ocultas. Imaginei uma banca de jornais, quando ainda havia jornais de papel, a revelar manchetes futuras, e as expressões incrédulas dos passantes curiosos pelas notícias do dia. Seriam meros erros de impressão? Ou fruto da intervenção improvável de algum viajante do tempo a nos alertar para o que as próximas décadas nos reservavam?
Que mil raios partam minha proto-onisciência, preferia não saber de nada, mergulhar minha cabeça na terra, como os avestruzes dos desenhos animados, a ter a mínima ideia do que estaria por vir. Curiosamente, os jornais traziam apenas manchetes em Inglês, talvez para ocultá-las da maior parte dos leitores. Prossegui em minha caminhada imaginária. O Caetano de Campos! Precisava visitá-lo, rever o pátio central, onde jogávamos bola com garrafinhas vazias de plástico, a fazer as vezes das imponentes bolas de capotão com que nossos ídolos do futebol ganhavam a vida, encantando estádios próximos e telespectadores distantes.
O Clube de Xadrez! Vi a mim mesmo, orgulhoso, jogando minha partida magistral com o folclórico e impagável enxadrista X! Asfixiando seu rei com meu cavalo imbatível, até que ele jogasse todas as peças para fora do tabuleiro, num acesso de fúria típico de alguns enxadristas mais, digamos, neuróticos... Ou empatando com o enxadrista Y, Mestre Internacional, bicampeão brasileiro nos anos 60... Assistia a mim mesmo, aos 17 anos, jogando dentro do "aquário", área destinada aos torneios, cercada por paredes de vidro a garantir silêncio para os cálculos mais difíceis...
Cinco sessões, cinco criações da criatura que acabara de nascer. “Com” ela, digo. Sozinha, a impúbere se movia a passos trôpegos. Orientada, ao contrário, mantinha a persistência do personagem, atualizava o prompt, criava guias e ainda sugeria estilos. Embora ainda lhe faltasse diversificar os planos cinematográficos, os resultados já impressionavam. Onde tudo isso iria dar? Seria a criatura capaz de interromper guerras, no futuro? Ou, ao contrário, ela as desencadearia? Fui dormir com a sensação da tarefa cumprida. Que tarefa? A de reviver experiências passadas que me foram significantes. A frugalidade de meus objetivos era prova inconteste de sua singeleza. Poderia haver algo mais, nesse laboratório imagético do espaço-tempo, a me corromper? A me levar para o mau caminho, nas próximas sessões?







